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Entrevista com o professor André Conforte, Músico e Gramático Apaixonado.

07/05/2009

andre_250O Professor de Língua Portuguesa da UERJ e Músico André Conforte, 37 anos, natural de Mendes (RJ), mas cariocou desde 1999. André participa de um interessante projeto cultural na sua terra natal: todos os domingos, desde janeiro de 2004, seu conjunto de choro e samba, o Passagem de Nível, anima as manhãs de moradores e turistas da pacata cidade com música de primeira. No ano passado, seu grupo lançou o primeiro CD, e um de seus maiores sucessos tem sido, surpreendentemente, uma música que fala de Língua Portuguesa: O Gramático Apaixonado, composta com um colega nos tempos de faculdade. Nos dias 12 e 14 de maio, ele baterá um animadíssimo papo com os empregados da ELETRONUCLEAR, nas unidades de Angra dos Reis e do Rio de Janeiro, respectivamente. Na entrevista que nos concedeu, ele falou um pouco sobre suas duas carreiras e antecipou um pouco do que vai dizer em seu bate-papo com os empregados.

 

ETN - Como nasceu o Gramático Apaixonado?

André - Foi na época da graduação, não lembro exatamente o ano. Sei que estava batendo um papo com o professor Cláudio Cezar Henriques, nos corredores do Instituto de Letras da UERJ, quando ele, sabendo que eu era músico, perguntou-me se não tinha nenhuma ideia musical para o programa Afinando a língua (aquele apresentado pelo Toni Belloto, do Grupo Titãs), do Canal Futura, já que ele era consultor do programa. Não perdi tempo:  corri para a cantina da UERJ e lá encontrei um colega que se dizia “bom versejador”, o Walace Cestari, um cara genial, super criativo,  para compormos um “samba metalingüístico”. Ele topou na hora.

ETN - E o que seria um “samba metalinguístico”?

André - Metalinguagem é o que ocorre quando você, em vez de falar de um assunto qualquer, usa a linguagem para falar da própria linguagem. Por exemplo, ao me fazer essa pergunta, você acabou de fazer metalinguagem, pois pediu a definição de um termo, correto? Fazemos metalinguagem o tempo todo e nem percebemos. As crianças, por exemplo, aprendem muitas palavras por meio disso, não é mesmo? Quem é pai ou mãe sabe.

ETN - Então o Gramático é um samba que fala de língua portuguesa, certo?

André - Isso. Nós imaginamos como um gramático faria uma declaração de amor utilizando-se dos termos que ele conhece, que são os termos gramaticais. Lógico que se trata de uma brincadeira, de uma caricatura, nenhum gramático faria uma declaração de amor assim, é claro. Mas tentamos seguir a linha do Gago apaixonado, do Noel Rosa.

ETN - E a música foi para a TV, então?

André - Pior que não. Quando fui entregá-la ao professor Claudio, ele disse que a pauta do programa, infelizmente, já tinha sido fechada para aquele ano. O samba ficou “adormecido” por meses, até que eu o apresentei ao professor André Valente, também da UERJ. O André Valente também adora conjugar música e Língua Portuguesa. No mesmo ano, ele me colocou para tocar o samba no maior congresso de Língua Portuguesa do Estado do Rio, em uma mesa da qual participava o saudoso crítico de música Roberto Moura. Foi uma honra e uma grande alegria. Fui aplaudido de pé - havia cadeiras, tá? -  e o samba ainda foi publicado em um artigo que ele escreveu sobre uso de música em sala de aula.

ETN - E quando é que ele foi gravado?

André - Eu tinha uma gravação de estúdio muito `chinfrim`, só voz e violão. Mas no ano passado o meu grupo de samba e choro lá de Mendes, o Passagem de Nível, gravou um CD, e eles resolveram colocar o Gramático no repertório. O retorno foi impressionante: nunca imaginei que uma música que falasse de gramática ia fazer tanto sucesso, não somente entre professores, mas entre o público de um modo geral, as pessoas que vão nos ver e ouvir lá na praça de Mendes aos domingos.

ETN - Isto quer dizer que é possível falar de um assunto aparentemente árduo como a gramática de um modo divertido...

André - Mas é claro que sim. Isso eu aprendi com o André Valente. A língua não é só a gramática, a gramática é só um aspecto dela. Mesmo assim, estudar nossa língua não significa decorar regras. A escola é que, infelizmente, nos passa essa ideia errada. Estudar a língua é aprender a cultivá-la, é adotar o bom hábito da leitura, é refletir sobre sua beleza, seus encantos, e também sobre suas dificuldades, é claro. Mas um pouco de estudo não faz mal a ninguém, não é mesmo?

ETN - É verdade quando dizem que a língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo?

André - Claro que não, essa ideia é totalmente infundada, uma vez que nenhuma língua é difícil para quem a aprende desde criança, e nenhuma língua é fácil para um estrangeiro em idade mais avançada aprender. Tem uma pergunta que costumo fazer aos meus alunos: qual a língua mais difícil: holandês ou espanhol? Quase todos respondem que é o holandês, mas eles se esquecem de que estão respondendo do ponto de vista de um brasileiro, que fala uma língua estruturalmente próxima do espanhol, também neolatina. Mas, e se eu fizesse a mesma pergunta a um holandês ou um sueco? Ele certamente diria que é o alemão, pois responderia partindo do ponto de vista dele...

ETN - Mas por que, então, cometemos tantos erros?

André - É preciso desmistificar isso: confundimos o desvio da norma padrão da língua com o erro de português. Rigorosamente falando, ninguém fala português errado, porque é nossa língua materna. Aprendemos a nos expressar nela com perfeição, desde os primeiros anos de vida, e conseguimos comunicar tudo o que queremos a partir dela, com total fluência, sem dificuldade alguma. Agora, a norma padrão, ou norma culta, essa é uma modalidade de prestígio, meio artificial, por assim dizer, e que só aprendemos na escola e por meio da leitura de bons livros, jornais e revistas. É um “dialeto” social que todos os brasileiros têm direito de aprender, e é fator de ascensão social importantíssimo. Sem ele, você não entra pra faculdade, não consegue um bom emprego, não passa num concurso.

ETN - E o acordo ortográfico? O que você acha dele?

André - O acordo tem que ser entendido não do ponto de vista propriamente linguístico, em que na verdade fez pouquíssima diferença, já que apenas 0,5% das palavras do português foram modificadas, mas do ponto de vista diplomático e comercial. Ele facilitará nosso intercâmbio com os outros países lusófonos, e possivelmente nos abrirá novos mercados. Então, temos que nos alegrar com esse acordo de unificação ortográfica, e ter um pouquinho mais de boa vontade com ele. Há alguns problemas sim, mas nada para arrancar os cabelos. A própria cartilha distribuída aos funcionários da ELETRONUCLEAR demonstra que as mudanças não são tantas assim.

ETN - E, para terminar, você pretende conjugar sua atividade de músico com a de professor no bate-papo que terá com os empregados da ELETRONUCLEAR nos dias 12 e 14 de maio?

André - Claro, isso é inerente ao meu modo de trabalhar. Se possuo esses dons combinados, por que não tirar bom proveito disso, não é mesmo? Vai ser uma conversa em que se conjugarão língua e música, mas também mostrarei o uso criativo que se faz do português no dia a dia, nos jornais, na publicidade etc. O brasileiro tem uma criatividade imensa no manejo da língua, faz um uso magistral dela, mas poucos se dão conta disso. É o que pretendo demonstrar lá.

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